Alfa puxa o celular que havia esquecido ter. Abre o aplicativo
com a mão trêmula. Será que fez bem em chamar para sua casa? O que Beta
pensaria se dissesse que mudou de ideia? Sairia como alguém que foge? Mas, de
fato, fugiu a vida inteira. Pensa de novo em Caio Fernando: sossega que o amor
não é pro teu bico. Amor? Escreve o endereço, chama, 3 minutos. Três mais
longos minutos. Beta acende o cigarro e desgasta o que restou do batom deixado:
marca de uma quase-vida. Sua boca é avermelhada por natureza. O carro se aproxima,
o cigarro é apagado na parede, as mãos de Alfa continuam trêmulas.
Dentro do carro, observa como uma criança: os cabelos de
Beta voam com o vento, os olhos brilham. Repara na mão que repousa sobre a coxa:
anéis de prata de diferentes desenhos. Sobe o olhar: uma frase de música
tatuada na parte de trás do braço. Se esforça, mas a falta de luz não permite
ler. Como em um estudo, permanece o percurso, ao chegar na curva do rosto.
Forte, preciso, assim como suas palavras. Tudo em Beta parece queimar. No rádio,
Caetano. De novo. A bruta flor do
querer. E quer, quer muito Beta em sua cama, na vida, entre os livros que
adora. Não sabe se dói, mas arde.
Ao chegar, apressa o passo para chamar o elevador. Tudo fora
de controle. Mal sabe de si. Por que a olha assim? O que quer? Qual tipo de
jogo estão jogando? Não gosta de jogos. Sempre perde. Abre a porta do apartamento
e diz como quem reproduz no automático para não-reparar-a-bagunça. Beta passa a
ponta dos dedos pela mesa da sala, encontra um livro. Leite Derramado.
- acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos
meus. – diz Beta com sua voz firme.
Alfa congela, parada no meio da sua sala de luz branca.
- o livro do Chico. – diz Beta, segurando com uma mão
enquanto ri.
- ah, sim... o livro.
[silêncio].
Alfa caminha até a cozinha para pegar uma bebida. Abre a
geladeira. Cerveja, vodka, vinho. Para impressionar, opta pela cerveja. Apenas
um copo, prefere beber no gargalho, como quem afoga todas as palavras presas na
garganta.
Ao retornar encontra Beta sentada em seu sofá, fumando um cigarro.
O olhar distante. A luz reflete no anel. O que estaria pensando? Será que
também tem palavras na garganta para afogar? Entrega o copo cheio, e brinda. Não
há mais distância segura. Apenas um gesto poderia mudar todo o destino da
noite, da vida. Bebe, mas as palavras são sobreviventes.
- seus olhos parecem turmalinas.
- como a pedra? – Beta franze a sobrancelha.
- sim. Como a pedra.
- turmalinas repelem as energias negativas. Você é meio
esotérica. Palavra estranha, não? E-s-o-t-é-r-i-c-a.
- não sou. Entendo pouco. Gosto da pedra, apenas.
- e do beijo?
[silêncio]
Mais uma vez se sente devorada pela boca de Beta, que apoia
o copo no chão e desliza os dedos sobre sua carne. Represa sem controle. Águas
que invadem sem pedir permissão. Dedos sob a água quente. Explosão de vida. Deseja
atravessar Beta e morar por suas entranhas. Adora, como nunca, aqueles dentes sob
o lábio inferior. Olhos de turmalina ofuscada, como quem busca alguma coisa,
como quem chega em algum lugar: ao ápice.
(...)