terça-feira, 19 de maio de 2020

A tempestade dos teus olhos castanhos

(continuação)


Apagam o cigarro e decidem entrar. Luzes coloridas, a música que mistura rock dos anos 80 com batidas de funk. Tontura, desejo, boca, unha. Pensou o que aconteceria agora, imersa naquela escuridão.
Beta deixa o corpo fluir entre as batidas, os olhos fechados, o cabelo que entra pela boca e se mistura ao sorriso. A cerveja na mão esquerda, imóvel. Dança tão solta como estrelas que vagam numa noite quente. Talvez não pertença mesmo a lugar nenhum, pensou.
- você não dança?
- sozinha, sim. – Alfa responde alto por causa da música.
- ninguém está nos vendo. As pessoas não veem as outras.
Beta a puxa pela mão. Sente o contato daquela mão fria na sua. O corpo responde: há uma infinidade de bichos se debatendo em seu estômago. Se deixa levar, aproximando o corpo de Beta e dançando. Prende os cabelos e solta as mãos. Nada mais importa, só ali, só agora. Com os olhos fechados e o suor que escorre pelo pescoço em direção aos seios, sente um calor se aproximar. Não tem coragem de abrir os olhos, então permanece dançando.
As mãos de Beta encostam em seu suor, e o lábio vermelho sangue encontra o seu. Em um segundo, nada mais existe. Não há luz, não há música: apenas as mãos de Beta e sua língua quente que passeia pacientemente pela boca. É devorada, mas já não pode mais fugir. Corresponde com a ferocidade de quem é represa pronta para arrebentar. E arrebenta. Molha. Aquece. O suor agora não é mais da dança. Seu coração em disritmia.
Quanto tempo durou aquele beijo? Não sabe. Tudo é infinito no desejo. Abre os olhos devagar, como quem desperta de um sonho, e encontra os olhos turmalinas de Beta a fitar. A boca serrada, o batom borrado. O cabelo. O gosto. O que faz agora? Não sabe. Novamente quer fugir, mas sente suas pernas presas àquele chão. Como alguém que precisa aproveitar uma chance única, envolve as mãos nas costas de Beta, e a beija de novo. Pequenos infinitos.
Já passam das quatro da manhã quando decide ir embora. Pergunta com a voz embargada se Beta quer acompanhar. As palavras tropeçam. A cabeça gira. Não convida ninguém nunca para sua casa. Beta sorri sem mostrar os dentes brancos e diz que sim.
 (...)