Apagam o cigarro e decidem entrar. Luzes coloridas, a música
que mistura rock dos anos 80 com batidas de funk. Tontura, desejo, boca, unha. Pensou
o que aconteceria agora, imersa naquela escuridão.
Beta deixa o corpo fluir entre as batidas, os olhos
fechados, o cabelo que entra pela boca e se mistura ao sorriso. A cerveja na mão
esquerda, imóvel. Dança tão solta como estrelas que vagam numa noite quente. Talvez
não pertença mesmo a lugar nenhum, pensou.
- você não dança?
- sozinha, sim. – Alfa responde alto por causa da música.
- ninguém está nos vendo. As pessoas não veem as outras.
Beta a puxa pela mão. Sente o contato daquela mão fria na
sua. O corpo responde: há uma infinidade de bichos se debatendo em seu estômago.
Se deixa levar, aproximando o corpo de Beta e dançando. Prende os cabelos e
solta as mãos. Nada mais importa, só ali, só agora. Com os olhos fechados e o
suor que escorre pelo pescoço em direção aos seios, sente um calor se
aproximar. Não tem coragem de abrir os olhos, então permanece dançando.
As mãos de Beta encostam em seu suor, e o lábio vermelho
sangue encontra o seu. Em um segundo, nada mais existe. Não há luz, não há
música: apenas as mãos de Beta e sua língua quente que passeia pacientemente
pela boca. É devorada, mas já não pode mais fugir. Corresponde com a ferocidade
de quem é represa pronta para arrebentar. E arrebenta. Molha. Aquece. O suor agora
não é mais da dança. Seu coração em disritmia.
Quanto tempo durou aquele beijo? Não sabe. Tudo é infinito
no desejo. Abre os olhos devagar, como quem desperta de um sonho, e encontra os
olhos turmalinas de Beta a fitar. A boca serrada, o batom borrado. O cabelo. O
gosto. O que faz agora? Não sabe. Novamente quer fugir, mas sente suas pernas
presas àquele chão. Como alguém que precisa aproveitar uma chance única, envolve
as mãos nas costas de Beta, e a beija de novo. Pequenos infinitos.
Já passam das quatro da manhã quando decide ir embora. Pergunta
com a voz embargada se Beta quer acompanhar. As palavras tropeçam. A cabeça
gira. Não convida ninguém nunca para sua casa. Beta sorri sem mostrar os dentes
brancos e diz que sim.