Acordou no meio da manhã de uma quarta-feira de tempo ameno. Cambaleou até a varanda e abriu as janelas. Sentiu a brisa fresca tocar seu rosto e levemente sorriu. Quarta-feira é sempre um bode, pensou. Quarta-feira é metade. Não possui distância suficiente da morte de segunda-feira e tampouco proximidade dessa tão esperada sexta-feira. Nunca havia entendido por que as pessoas esperam ansiosamente pelo final de semana. Mais um dia. Mais 24 horas inteiras. Ligou o chuveiro e deixou que a água gelada escorresse entre o corpo, como numa brincadeira. Escovou os dentes, passou os dedos frios por entre os fios de cabelo. Olhou-se no espelho por segundos inteiros.
Seu nome é Alfa.
Estudava filosofia em uma desses universidade consideradas as melhores do país, mas preferia ficar no último andar do prédio velho ouvindo música - sozinha. O aparelho vibra. Amigos que convidam para essas noites em bares cheios de tantas coisas iguais. Responde que sim, claro, às nove horas no metrô. Sente preguiça de todo o jogo social que irá ter que fazer e de quantos sorrisos irá ter que forjar para parecer interessante para caras que não possui interesse nenhum. Não sabe bem ao certo porque age assim. O aparelho vibra de novo. Um carinha que conheceu em uma livraria certo dia e que se acha imensamente profundo porque ler Tolstói. Um porre. Não o pobre Liev, o rapaz mesmo, que insiste naquelas camisas quadriculadas e a barba grande. Responde que sim, claro, às oito e meia em frente aquela livraria onde aconteceu o encontro que ele - unicamente ele - considera mágico. Mais um encontro tedioso. Mais horas inteiras ouvindo sobre "Guerra e Paz". Vai aos encontros como quem se dirige a um trabalho: rotina. Beijou-o uma vez, mas não gostou. Aumenta o som dos fones de ouvido.
Chega a sexta-feira. A cidade se excita em suas cores, luzes e sons. Alfa veste um jeans justo ao corpo e uma camisa azul-bebê. Pinta os lábios de vermelho. Sangue. Odeia salto, mas usa. Convencionalidades a seguir. Caminha até a estação de metrô onde encontra os amigos que conversam sobre inutilidades e riem. Ao sair da estação da Cinelândia, seu destino, vê os arcos iluminados de uma Lapa que, por romantismo ou fatalidade, imagina esconder grandes paixões. Queria um amor daqueles do cinema francês, com cigarros, bares pouco iluminados, olhos que se entrelaçam em silêncio. Suspira, mas não alivia a alma. No bar de esquina pensa nos anos 20. Tem certeza de que as pessoas se amavam mais antigamente. Poetas que sofriam, boêmios que se escondiam no calor de corpos distintos. Bobagens! Com o copo de vodka na mão esquerda, tira um maço do bolso com cuidado e puxa um cigarro com os lábios vermelho. Sangue. E na confusão desajeitada para acendê-lo, surge de frente aos seus lábios uma mão com unhas cor de sangue, como seu lábio. Sobe os olhos para a fatalidade de queimar-se no fogo daquelas pupilas. Beta não precisava se apresentar. Reconheceram-se.
Enquanto tragava seu cigarro, enevoando o rosto de Beta, Alfa pensou em trecho que leu uma vez, sem se lembrar onde, no meio de suas memórias confusas: num deserto de almas vazias, uma alma especial reconhece a outra. Caio Fernando Abreu, lembrou. Enquanto a fumaça se dissipava, continuava o pensamento em ordem cronológica: alma especial… deserto… reconhece… seriam elas almas que se reconheceram? Olhou o rosto claro de Beta, e teve a sensação de não penetrar jamais naqueles olhos. Estendeu a mão, ofereceu o cigarro, como quem oferece a vida para ficar. Dedos que levemente se encostaram, em uma dessas sensações onde o segundo é eterno. Beta tragou, e disse, com a voz forte e baixa:
- por que os lábios vermelhos?
- e por que as unhas? - respondeu Alfa, ríspida, como quem se defende.
Beta sorriu, abaixando a cabeça, com a mão dependurada ao ar.
Tinha os traços fortes, lábios carnudos, olhos muito escuros. Turmalina, pensou. Pedra preferida. O vento balançava seus cabelos como um pianista, que dedilha aos poucos suas notas.
- de onde voce é? - perguntou Alfa
- sou daqui e de lugar nenhum. nunca somos, sempre estamos. - respondeu Beta, fitando o cigarro, e em seguida, complementou, falando quase para si: - deserto de almas…
Alfa se assustou, cambaleou para trás na cadeira. Como poderia Beta saber aquilo que pensava? Evitou olhá-la e quase como um reflexo, acendeu outro cigarro.
Passaram a noite bebendo, fumando. Por segundos se olhando, analisando. Alfa queria além daquelas unhas vermelhas em sua carne. Queria vê-la por dentro. Abraçar seus demônios. Sentiu uma vontade quase estúpida de beijá-la. Perguntou:
- qual é teu nome?
- Beta. - respondeu
[silencio]
- não vai perguntar o meu? - indagou
- não preciso saber.
- o nome diz quem somos.
- não, o nome nos aliena de nós mesmo.
- mas você se representa como Beta, logo, é Beta. Será sempre Beta.
Beta riu, mais uma vez, e disse em voz serena:
- menina, você não sabe mesmo nada...
Por um segundo viu-se novamente ríspida. Teve a sensação de banalidade. Medo, desejo. Paixão, não. Pensou com força, como quem reza a um santo distante.
Noite adentro, entre amigos, olhares, sentiu uma impetuosa vontade de levantar, sair correndo dali, andar sem rumo. Disse quase que para si mesma:
- vou comprar cigarro.
- como? - perguntou Beta, se aproximando na tentativa de abafar o som alto de uma música qualquer.
- vou comprar cigarro. - Repetiu, levantando-se enquanto dava o último gole na vodka quente.
Beta acenou que sim com a cabeça, voltando o rosto iluminado para os amigos. Queria convidá-la a sair dali, mas não devia. Não, não podia. Seria fácil demais. Estaria se abrindo demais. Demonstraria e a assustaria. Respirou fundo mais uma vez e foi.
Enquanto caminhava pelas ruas, surpreendeu-se ao se pegar pensando na infância. Na doçura que vem perdendo ao longo dos anos. Caminha em frente, sempre em frente, com o vento alisando suavemente o rosto.
Ao redor, observa pessoas que sorriem. Toda aquela alegria lhe cortava o coração ferozmente, de súbito. Pensou na dualidade que é sentir, ao dar aos outros apenas uma areia seca, áspera, incolor. Areia morta. Puxa mais uma vez o maço amassado, tira o cigarro, e antes que pudesse levá-lo a boca, escuta ao longe uma voz conhecida. Move o corpo lentamente, como uma asa frágil e quebradiça. Seus olhos não reconhecem de primeiro aquela silhueta. Esforça-se. Era Beta.
- oi. - diz, confusa
- eu também vou comprar cigarros.
[silêncio]
- adoro essa música. - Emendou, num sorriso entreaberto.
Alfa se esforçou para ouvir. Quereres, Caetano. E sorriu, mas numa morbidez ao concordar. Bruta flor do querer. Bruta flor. Bruta flor…
Voltou novamente os olhos para Beta, que a fitava como um fogo, pronto para incendiar da escadaria aos arcos. Não conseguia dizer que também adorava aquela música. Não conseguia dizer nada. Fração de segundos em que se perde no tempo-espaço.
- sim, o cigarro… vamos? - disse virando-se mais uma vez para frente, andando a passos largos.
- na verdade, acho que você tem razão. me apresentar como Beta me forma como tal. por isso não perguntei seu nome. não quero ter sobre ti uma ideia formada pelos meus ideais. afinal, somos isso, não? um conjunto de ideais amontoados, jogando expectativas e frustrações em cima de outro corpo.
- mas…
- não me interrompa, vou perder a linha de raciocínio. sim, como eu ia dizendo… a gente se frustra quando colocamos alguém dentro dos nossos parâmetros. e achamos que combinamos por coisas banais como seu batom vermelho. meu esmalte vermelho. não combinamos.
- ou talvez, sim.
- talvez não existe…
- talvez é a ponte entre o achar e o acontecer. você possui certezas demais.
[silencio]
Entram num depósito e Alfa pede um Marlboro vermelho. Cigarros fortes para noites intensas. Dois, Beta também fumará do mesmo caos.
Enquanto Beta se senta no fio da calçada e acende um cigarro, Alfa pede um copo de vodka barata e a observa de perfil. Os cabelos cortando o rosto. A fumaça que sai pela boca. A mania de bater o cigarro sem parar com o dedo indicador. Senta ao seu lado e tem vontade de rebater todo seu discurso, mas sente preguiça. Não vale a pena. A gente nunca muda o outro, pensa. Procura o isqueiro nos bolsos da calça e não acha.
- merda! de novo!
- o que foi?! - beta não se assusta, mas finge demonstrar
interesse.
- esqueci meu isqueiro no bar. vivo perdendo essas merdas.
Beta estende a mão, levando o cigarro até sua boca. Traga
devagar, enquanto se olham. Deixa marcado seu batom no filtro amarelo.
- eu acho que você tem certezas demais, e isso é uma
besteira. - solta, involuntariamente, sem perceber. no mesmo segundo se
arrepende.
- você também tem as suas, tenho certeza.
- mais uma certeza…
- a gente finge ter certeza porque no fundo, bem lá no
fundo, não sabemos de porra alguma. você se esconde, e eu também.
- não me escondo! - diz esbarrando na mão em que beta segura
o cigarro.
Ela ri. Balança a cabeça. Alfa se pergunta como alguém
consegue atravessá-la assim. Perigoso demais. Riscos demais. Bebe a vodka
enquanto pensa em não pensar em nada.
- conheço uma festa boa aqui perto. quer ir?
- não gosto de festas assim… é quase uma felicidade
obrigatória. - Alfa está novamente ríspida e fechada no seu ciclo.
- bom, eu vou.
Beta joga o cigarro no chão e se levanta. Sai andando sem
olhar para trás, como alguém que sabe onde vai chegar. Quer ir, mas tem medo.
Quer levantar-se dali e ir correndo ao encontro dela, mas não pode. Se pensasse
mais talvez não iria, mas joga o copo longe e segue na mesma direção.
- ora, você vai?
- você é sempre provocativa.
- você é provocável.
- você está sendo babaca.
- eu mal te conheço, como sou babaca?
Beta para de frente pra Alfa. Consegue sentir o vapor quente
de sua boca com o cheiro de cigarro.
- vamos, diga, como posso ser babaca se não sei nada de ti e,
você, nada de mim?
[silêncio]
Beta volta a caminhar. As mãos que se movimentam ao redor do
corpo e sobem para o cabelo, ajeitando inutilmente.
Chegam na porta da festa. Há pouca gente do lado de fora.
Bebendo, fumando, beijando. Sons se misturam, pessoas que falam alto.
Felicidade real ou exercida? Não consegue terminar, é invadida pela voz.
- vamos entrar, ou você quer fumar?
- vou fumar só um.
- vou lá dentro pegar as bebidas, um instante.
Some na fumaça. Alfa agora pensa que, talvez não fossem as
unhas vermelhas, não haveria ligação alguma. Tudo bem, é uma cor de gosto
comum. Assim como a frase de Caio Fernando. Todo mundo já leu Caio Fernando. O
cigarro amarga, a boca pede a outra. Não, não poderia. Talvez devesse ter
ficado em casa, ouvindo suas músicas, pensando em amores impossíveis, fumando,
bebendo, fitando a solidão. Parada em uma Lapa que vibra, observa Beta voltar
com dois copos cheios de cerveja.
- você estava bebendo vodka, mas eles não tem.
- não tem problema.
- eu prefiro cerveja. vodka acaba com o fígado.
- toda bebida acaba.
- que seja lentamente, então. – Beta sorri, os olhos se espremem,
a boca mostra seus riscos.
[silêncio]
- do que você tem medo?
- hã? – Alfa finge não entender para ganhar tempo.
- do que você tem medo? me conte.
- não gosto de répteis.
- não seja trivial, quero saber da vida. o que na vida te
assusta? – Beta acende um cigarro olhando.
- nada me assusta.
- eu te assusto?
Alfa para levemente o copo na boca, e queria dizer que sim,
muito. Que da vontade de sair correndo, se esconder, mas não consegue evitar aqueles
olhos:
- não. – responde acendendo um cigarro.
- você fuma muito.
Alfa sorri pela primeira vez, sarcasticamente, mas sem que
pudesse responder, Beta emenda:
- qual seu signo?
- Capricórnio.
- Aquário.
- não perguntei o seu.
- quis dizer. você acha que signos combinam?
- talvez...
- o talvez não existe.
[silêncio]
(continua...)
(continua...)