(Para ler ao som de Kings of Leon – Only By The Night)
Este conto possui referências de um passado partido.
I -
Muitos anos tinham se passado desde que Beta havia cruzado a
porta da casa de Alfa. Lembra-se perfeitamente daquele dia: o medo, o peito em
chamas, a lágrima que brota no olho. Não olhou para trás, porque olhar a faria
ficar. Não ficou.
Anda agora por essas ruas cinzentas, entre amores banais,
conversas triviais, cervejas que esquentam, cigarros queimando a ponta do dedo.
É verdade, lembra de Alfa dizendo sobre seus olhos. Turmalina. O que Alfa
pensaria se soubesse que comprou turmalinas para enfeitar a sala? Como alguém
que guarde um pedaço de um passado partido.
Noite quente no Rio de Janeiro. Caminha com seu jeans
rasgado, a regata básica, o vento que bate no rosto – mas não refresca. Senta-se
na praia de Botafogo com um vinho de mercado nas mãos. Olha ao redor: casais
que andam abraçados, cachorros correndo, pessoas que tomam banho. Por um
segundo ri de si mesma pensando na coragem de quem se banha em água suja, mas
se detém, lembra que também se banhou em águas assim muito duvidosas.
Acende um cigarro. Pensa em Alfa. O que estaria fazendo
agora? Não, Alfa não pensa nela. Beta continua agarrada nessas certezas falhas.
Não, não tem por quê. O tempo apaga. Ou tira do foco da memória? Não importa.
Bebe um gole do vinho barato. Seus olhos correm pela praia
noturna e param em uma silhueta conhecida. Alfa está parada com os amigos,
conversando, rindo, bebendo seu copo de vodka. Os lábios vermelhos. Beta desce
o olhar para suas unhas: também vermelha, como no encontro em algum lugar do
passado.
O coração em descompasso, a fumaça o cigarro que não chega a
garganta. Não, não poderia ser. Mas é. Olha de novo para Alfa e seu rosto límpido,
muito diferente do dia da despedida. O que fazer agora? Quer correr em direção
a Alfa, olhar de perto, perguntar qualquer besteira para ouvir a voz sair
daqueles lábios. Quer ir embora, largar tudo, fugir. Está presa na atmosfera do
medo.
Alfa se vira lentamente e seus olhos cruzam os de Beta.
Choque, explosão, boca seca. O copo que cai da mão de Alfa, que pendura quase
de forma estúpida. Caminha devagar em direção a Beta que pensa ter mais de um
coração pulsando no peito.
Alfa se senta na areia gelada, olhando para frente.
- ironia do destino. – diz, sarcástica
- ironia ou destino?
[silencio]
- como anda a vida? – pergunta Beta, desajeitada.
- tudo bem, tudo fluindo. Vamos levando, não?
- é, vamos sim.
- e você?
- bem, claro.
Alfa pega o vinho da mão de Beta
- você agora bebe essa porcaria?
- era o que o dinheiro dava. Com certeza melhor que vodka.
- ah, as certezas...
- não comece, Alfa.
- não precisa se fechar como um porco-espinho, não estou te
julgando.
- você sempre esteve.
- eu tinha algumas razões.
- você não sabe de nada.
- você não me dizia.
- tem coisa que não precisa ser dita.
- o óbvio também precisa ser dito.
[silencio]
A mágoa que se dissipa no ar é levada pelo vento. Os corações
ritmados. Elas sabem, mas fingem que não.
- meus amigos vão beber num bar aqui perto. Você quer ir? –
pergunta Alfa, olhando dentro das retinas turmalinas.
- não sei se seria ideal...
- é só uma cerveja, Beta. Não crie histórias.
Beta franze a testa. Pensa em revidar, mas desiste. Concorda
em ir.
Ao chegar na roda, os amigos de Alfa olham para Beta como
quem encontra um fantasma vagando. Lembram das noites mal dormidas de Alfa,
seus choros, suas garrafas vazias, aquele vinil do Chico que demorou um ano para
tocar de novo. Mas não dizem nada. Caminham entre toques, abraços, risadas.
Beta vai um pouco atrás, as mãos dentro dos bolsos da calça, quando Alfa vira e
os cabelos invadem o rosto, que ela tira com a ponta dos dedos, sorrindo.
Gravou na memória aquele momento. As luzes da cidade tão ofuscadas. Pensou ter
passado, mas o amor se tornou apenas um pássaro preso em uma gaiola, ansiando
agora pela liberdade.
II –
Chegam ao bar na Voluntários da Pátria. O barulho das
garrafas, das vozes, dos beijos. Vulcão de emoções de uma cidade ativa, em erupção.
Escolhem um mais ou menos vazio, puxam uma mesa. Alfa se senta de frente para
Beta, que falha nas tentativas de evitar o encontro dos olhares. Logo ela, tão
dona de si, tão firme, e agora tão menina. É chamada para a realidade quando a
cerveja chega. Bebe o primeiro copo de uma vez, causando risada em Alfa.
- está nervosa? – pergunta rindo
- não, com sede. – responde ríspida, pensando que esse papel
é ridículo.
Os olhos agora demoram. Acha estranhíssima essa veracidade
que escapa de Alfa.
- me conte da sua vida. – Alfa pergunta com interesse
- o de sempre. Trabalhando, andando pelos bares, conhecendo
essa gente chata.
- e o coração?
O copo repousa rente aos lábios de Beta. Como poderia
responder essa pergunta? Queria dizer que
ainda a ama, é verdade. Talvez agora mais do que antes. Mas não diz. O medo da
resposta cala o sentimento novo-antigo.
- batendo. – responde acendendo um cigarro.
- ora, isso eu sei. Quero saber se você se apaixonou. – Alfa
insiste, talvez no fundo soubesse a resposta.
- não. Você?
Alfa sorri como criança satisfeita. Beta pensa que deveria
ter mentido e dito que sim. Que dividiu camas incontáveis, que já não lembra
mais dos dedos de Alfa pelo seu corpo.
- você está diferente. – constata
- ainda bem... não poderia mais ser a mesma desde que
você...
[silencio]
- desde que eu fui embora.
[silencio]
- você guarda mágoas demais. – diz Alfa, puxando um cigarro
do maço amassado.
- pode ser.
- é preciso perdoar.
- não sou boa em perdoar.
- os outros ou a si?
Alfa agora a fita séria. Beta a olha de volta na mesma
seriedade.
- comprei turmalinas para enfeitar a sala. – diz Beta,
puxando o cigarro dos lábios de alfa.
- joguei todas as minhas fora.
A fumaça deixa turva a visão entre as duas.
- pelo menos das turmalinas você gosta.
- o que quer dizer?
- sabe exatamente o que quero dizer, Beta.
- mas também gosto de ti.
Alfa dá um gole na cerveja enquanto solta uma risada
desacreditada. Pensa que quem gosta não parte, mas sabe que não é verdade. Não
totalmente.
As horas se passam entre olhares atentos. Mãos que se
esbarram. Conversas entre amigos que Beta desconhece, mas sorri, como
coadjuvante. Gosta mesmo da risada de Alfa.
Tão leve, segura. Não é mais a menina assustada a quem ofereceu um isqueiro
na Lapa.
Alfa se levanta olhando para Beta.
- preciso ir, amanhã tenho um dia cheio.
- sim, eu também vou.
- quer carona?
- você vai dirigir?
- não, vou chamar um uber. Coloco duas paradas.
- coloque uma. Precisamos conversar.
A certeza que cobria Alfa se esvai. Vê-se novamente menina
assustada. Pensou ter controle dos sentimentos, mas não tem. Pensou encontrar
Beta tantas e tantas vezes, por ruas que não precisava andar. A vida brinca
mesmo com a gente, pensa.
- eu pensei em te ligar algumas vezes. – Alfa diz mexendo no
telefone
- eu não tenho mais seu número.
- imaginei. Você é boa em fugir.
Beta respira fundo. Não fugiu. Fez o que era necessário.
Precisava estancar. Ou tentar.