terça-feira, 17 de novembro de 2020

tantos eus.

Não saberia ser diferente do que sou

Um amontado de histórias, amores, dores 

Quem passou, deixou em mim uma marca 

Como um corte de navalha 

Que não dói, mas retalha.

Tudo que amei ficou de mim e em mim 

Como uma fotografia antiga 

Que sempre olho 

Pra lembrar de onde vim. 

Meu coração de poeta 

Cabe tudo:

A vida, a dor, você 

E tantos outros rostos 

Que enxugavam a água 

Que você faz nascer em meu rosto. 

Sem espaço pra mágoas 

Pulsa como vitrola quebrada 

Pausa na mesma música 

Amor as vezes é criança mimada. 

Sobre um amigo distante.

 Lembro de conhecer João por meio de amigos. Algum amigo dele que ficava com uma amiga minha. Ou era o contrário. No começo, a gente se falava pelo msn. Trocávamos músicas, quadrinhos, histórias. A primeira vez que fui papear com João, estávamos em uma cafeteria em Botafogo. Lembro dele me dizendo “café com essência de baunilha nem é café”. Ainda dou risada dessa afirmação banal. Ainda bebo o mesmo café.

João dividiu comigo livros, músicas, cigarros e cafés - sempre reclamando. Enxugava minhas lágrimas enquanto escutava de forma incansável Los Hermanos comigo. Eu ouvia “sétimo andar” em looping. Quando ficava muito difícil, me abraçava e dizia “moça, deixa de bobagens, vamos beber no baixo Botafogo.” 

João parecia índio. Tinha o cabelo lisinho, a barba rala. Usava camisas de flanela que eu dizia parecer o Marcelo Camelo e ele sempre respondia “tudo bem, eu gosto do Camelo”. Eu eram team Amarante. Achava meu coração lindíssimo e me ouvia por horas falando de um coração partido. Sempre atento, sempre paciente. 

João me apresentou Vanguart numa tarde de calor no metro do Rio de Janeiro. Ouvíamos sempre a mesma música: se tiver que ser na bala, vai. João reclamava do meu cigarro e fumava sempre sem estourar a bolinha, e riamos por horas daquele livro ácido - o qual ele me presenteou.

João era arquiteto apaixonado por cinema. Me deu minha primeira claquete, me ajudou a gravar curtas, produziu comigo, dizia que devia fazer cinema, não história. Era apaixonado pelo Glauber Rocha e “Acabou Chorare” dos novos baianos. 

João adorava Roberto Carlos e me fazia ouvir. Eu dizia sempre “vai, esse cara é um cuzao.” E ele respondia “Ju, somos sempre cuzoes, assim é a vida.” Não mentiu. Eu dizia que ele era assim meio clichê, mas eu também era. Talvez até mais.

João era tricolor roxo e quando o Fluminense perdia pro Flamengo, me mandava SMS dizendo “nem vem”. E quando ganhava, era um inferno. Com João comprei uma garrafa de cachaça e bebi na praia de Ipanema, numa noite de quinta-feira, o que me rendeu um porre e vômitos homéricos, enquanto ele segurava o meu cabelo e dizia “porra, Juliana...” 

Achávamos que sabíamos muito. Sobre livros, poemas, cinema, corpos, amores. Ou eu achava? Minha memória me confunde. Acho que eu era uma menininha de coração partido que pagava de badass enquanto João era aquilo que mostrava: repleto de dores e amores. 

João dizia “eu não sei o que você vê nessa menina”, enquanto me passava mais um copo de cerveja. Eu dizia que também não sabia, mas tudo bem, ia passar. João virava de forma irônica e dizia “Chico disse que amores serão sempre amáveis”. João era. Era amável. Não romanticamente, mas era. 

Lembro de perguntar, aos prantos, como ele não me achava alguém ruim, pequena, vil. E ele responder sorrindo “todo mundo erra, e tem gente mais filha da puta por aí que você.” E a gente dava risada de novo, enquanto as lágrimas molhavam meu rosto. 

João sempre se atrasava, e me deixava putissima. Por isso então sempre chegava no rolê com um cigarro, um chocolate. Eu era dificílima na época. Orgulhosa, dolorida. João ficava pacientemente em silêncio até que eu tivesse disposta a falar. João me ensinou a não me esconder por trás do muro - e ele não foi o único, não tiraria o crédito de outros amigos.

A vida, as coisas e os caminhos nos afastaram. Creio que, de toda forma, não ficou mágoa nenhuma entre a gente. Sempre que penso no João, lembro da cara feia ao provar o café dizendo que não, tá errado, isso nem café é. Se hoje escrevo, é graças a ele. Que lia, relia e dizia “sentimental demais....” “faça um blog” “você gosta muito do Caio Fernando”. 

Hoje, queria estar bebendo com João no baixo Botafogo. Sei que contaria tudo, sem receios, sem esconder as partes sujas, e ele diria “a vida é assim, bebe que passa”. Não sei se tive muito tempo pra dizer o quanto fui grata e o quanto amei João. Acho que ele sabe. De qualquer forma, moço, que saudade de ti. Brindo aqui pra ver se passa aquela escuridão - porra de vida! - e acho que você entende.