sexta-feira, 30 de outubro de 2020

 III.

Alfa entra no uber com a certeza quase insana de que deveria ir andando. Encerrar a conversa, se despedir como quem reencontra um antigo conhecido. Mas observa os traços de Beta encostada na janela. Lembra da primeira vez que viu suas tatuagens, o contorno do rosto, as mãos. 

O coração em desalinho.

Beta se vira lentamente e encara com seus olhos de turmalina. Alfa não consegue decifrar. 

- pensei nunca mais te encontrar. - diz Alfa com a voz embargada

- a vida brinca com a gente. 

Alfa pensa com uma certeza banal que Beta escuta seus pensamentos. Teria também escutado todas as vezes que a chamou dentro do quarto, com o cigarro entre os dedos, a garrafa quase vazia? 

Ao chegar no apartamento Beta se sente como quem visita um lugar do passado. Observa o livro, o vinil, as plantas. Quase nada mudou. Lembra do dia que foi embora. Meu Deus, como queria ter ficado. Como queria ter tentado. Queria ter sido. 

- vou perguntar o óbvio, mas quer beber o que? - Alfa pergunta apoiada na porta da cozinha

- uma vodka.

Inesperada resposta. Mas enche os copos com vodka pura e gelo. 

Ao voltar para a sala encontra Beta sentada em seu sofá como uma pintura surrealista. Como essa mulher lhe dói as vezes! Mas entrega o copo na certeza fingida:

- disse que precisávamos conversar.

Beta bebe em silêncio. Queria dizer tantas coisas mas há o orgulho, o medo, a mágoa. Uma névoa que nunca se dissipa da história das duas. Infla o peito:

- sim... eu... queria te perguntar. - Beta diz revirando os gelos no copo.

- pergunte. 

- se eu tivesse ficado, teria sido diferente? conseguiríamos transpassar tudo? teríamos destruído nossa chance?

- nós destruímos de qualquer forma.

- sim, mas e se eu tivesse ficado?

- não tem como saber. 

- isso é uma merda. - Beta puxa com cigarro com o lábio numa mágoa visível. 

- não dá pra chorar sempre pelo o que foi.

- eu não choro mais.

Alfa sabe que não é verdade, mas finge acreditar. Deixa Beta manter a pose de fera ferida e enjaulada. 

- eu fiz tudo que podia pra te esquecer. tudo. te odiei, busquei outras pessoas, amaldiçoei o dia que te deixei chegar perto de mim. não quis te ver nunca mais e ainda assim...

- me encontrou em tudo. - Alfa interrompe com a voz estranhamente suave, como quem também passou por isso e se conformou.

[silêncio]

- mas eu, meu bem, desisti de te esquecer. é uma luta vã. aceitei de vez que não dá pra te tirar do peito. e que tem amor que, mesmo sem viver, é pra levar pra sempre. - Alfa diz como quem recita um poema

Beta a fita com os olhos embaçados pela água que insiste em brotar. 

- você não pode me amar. 

- e por que?

- porque não faz sentido. todo esse tempo...

- tempo é relativo. 

- pareceu uma eternidade.

- pra mim também.

Alfa estende os dedos com medo de tocar a pele fria de Beta. Encosta tão leve como quem troca um fio desencapado, mas Beta entrelaça os dedos nos seus, tentando segurar algo que deixou pelo caminho. Se olham em total silêncio, se decifram, e sabem que, por tão imensa que seja a mágoa, o amor é bicho teimoso - sempre arruma um jeito de dar as caras.